Um comentário sobre o pop

Enquanto lia um post no Ipsis Litteris, mais uma vez tive contato com a longa briga entre o Bom e o popular. O Grijó discursa com propriedade sobre a presença de uma letra da Pitty no simulado de um curso pré-vestibular, questionando a razão de se incluir, numa prova de literatura, um texto desse valor literário(pouco ou nenhum, de acordo com ele).

Pitty, sinônimo de pena.

Pitty, sinônimo de pena.

Eu assino embaixo. É relevante discutir a função de uma prova e do que deve ser analisado nela, e na presença de tanto material de qualidade, apelar para algo cujo quase-único valor é ser familiar ao estudante, perdendo, assim, a oportunidade de apresentá-lo a obras mais elaboradas, é lamentável.

Agora, apesar de concordar, preciso fazer uma consideração que não vi nem no post quanto nos comentários: o fato de o bom e do aceitável mudarem. Grijó não vê valor numa letra de Renato Russo, mas os professores que hoje estão chegando na casa dos 30 anos cresceram ouvindo Legião Urbana e podem acabar por ter a percepção prejudicada. E, na medida em que estes professores fizerem uso de material mais popular, é inevitável que esse material venha a se tornar as novas referências para essas novas gerações.

Ainda sem entrar no mérito do que é melhor literatura, música, enfim, arte, cabe aqui um artigo publicado na revista Wired algumas semanas atrás. Em suma, o artigo aborda o movimento atual de abandono de certas características típicas da qualidade por outras que interessem mais ao usuário no balanço final, como é o caso de assistir a vídeos em baixa resolução no YouTube, pois isso é um preço justo a se pagar pelo enorme acervo e facilidade de acesso. Em determinado ponto do artigo, cita-se uma pesquisa realizada por Jonathan Berger, da Stanford University ao longo de vários anos: no início do semestre letivo, ele pedia aos alunos que ouvissem os mesmos trechos de determinadas músicas em diversos formatos, de baixa qualidade(como o mp3) até os de mais alta fidelidade e registrassem quais preferiam. O professor observou que, ao longo dos anos, mais e mais alunos preferiam mp3, mesmo sem saber, o que o levou a crer que a percepção de qualidade vem mudando sem que se perceba – e, por consequência, se possa evitar.

Não quero soar como Nostradamus, mas a verdade é que a qualidade do que consumimos tende a cair, não pela ausência de artistas competentes, mas pela facilidade com que os menos competentes chegam a nós. A juventude de hoje pode até não se esquecer de Chico Buarque, mas vai colocar o Fresno em pé de qualidade, por mais revolta que isso gere.

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Uma resposta em “Um comentário sobre o pop

  1. Olá, Francisco. Primeiramente agradeço a generosidade da citação de meu blog.

    Em segundo lugar: espero que suas previsões não se concretizem ou, se elas se tornarem verdadeiras, espero estar aposentado. Ou gagá.

    Gostei da sua observação quanto a Renato Russo. De fato, acho-o um compositor medíocre, que serve – ou serviu – às exigências, numa determinada época, de um mercado adolescente que preferiu manter-se nessa faixa etária mesmo “amadurecendo” em termos cronológicos. Nada contra esse mercado, claro. Considero-o necessário, assim como nada tenho contra quem curte RR. Mas vc tem razão em seu questionamento: e os professores que tiveram como referenciais intelectuais figuras como Herbert Vianna, Renato Russo, Cazuza? Q que vão oferecer a seus alunos?
    É um questionamento pra lá de procedente.

    Abraço.

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