Evernote Peek

“Talento é acertar o alvo que ninguém acertou. Gênio é acertar o alvo que ninguém viu”

Não lembro quem cunhou essa frase, mas pensei imediatamente nela quando vi o novo lançamento do Evernote.

O Evernote é um excelente programa, o iPad é um excelente produto e a Smart Cover é a capa mais legal que existe, mas ninguém viu o Evernote Peek chegando e não tem como não achar genial essa interação entre hardware e software.

Flash cards não são muito comuns aqui no Brasil, mas são uma ferramenta de estudo que consiste em um cartão com uma pergunta sobre o material de um lado e uma resposta do outro. O Evernote Peek aplica essa ideia usando a possibilidade de abrir a Smart Cover em estágios para mostrar uma pergunta e, em seguida, a resposta e a possibilidade de travar o iPad 2 fechando a capa para trocar de pergunta. Ele é um aplicativo separado (gratuito) que transforma as notas em um caderno do Evernote em uma série de perguntas, onde o título da nota é uma pergunta e o corpo da nota é a resposta. Não dava para ser mais simples, mas só pelo vídeo já dá pra ver como seria divertidíssimo usar e não envolve nenhum aprendizado ou custo novo (assumindo que você já tenha um iPad 2 e uma Smart Cover!).

Olhar pra quê?

Semana passada eu comprei um iPod Shuffle e fiquei de cara com a facilidade em controlar todas as funções sem nenhum visual, só usando som e tato. Aí eu conheci o projeto de Dennis Hong e achei o controle do Shuffle tão moderno quanto uma TV preto-e-branco.

Durante uma palestra no TED, Hong comenta que participou de um projeto para criar um carro controlado somente por computador. Quando ficou sabendo do projeto para criar um carro para cegos, ele pensou que seria só colocar uma pessoa dentro do carro projetado et voilà. Ele não tinha ideia de onde estava se metendo.

Dirigir um carro no meio de outros carros, com diferentes obstáculos e atitudes inesperadas de outros motoristas exige um poder de análise que computadores ainda conseguem oferecer, e é aí que entra o desafio do carro para cegos: como fornecer ao motorista todas as informações necessárias para que ele dirija com segurança sem usar visuais? Juntando um projeto ao outro: computadores para fazer a leitura do ambiente, ser humano para interpretar tudo isso e dar ordens. Câmeras e sensores varrem o ambiente, traduzem as informações para um padrão inteligível ao motorista (sons, pressão), que toma decisões sobre o controle do carro e o sistema se retroalimenta. Fantástico.

Momento e percepção

Numa matéria da Wired de outubro, é relatado um estudo da Universidade de Purdue relacionando nosso estado de espírito e a percepção de mundo que ele acarreta.

4003270815_d88bc5fb33_b.jpg

Basicamente, 23 participantes, não-jogadores de futebol americano, chutaram 10 bolas e depois desenharam a trave que serviu de alvo. O interessante é que a maneira como eles retrataram a trave esteve diretamente ligada à sua perfomance: aqueles que acertaram mais retraram a trave como maior do que o normal, enquanto os que erraram, a retrataram como menor. Pior que isso, como eles erraram também influenciava, pois os que chutaram para o lado desenharam uma trave mais estreita, enquanto os que chutaram baixo registraram uma mais alta. Esses resultados são condizentes com a sensação de confiança de jogadores que “entram no jogo” e cada acerto faz o próximo parecer mais fácil.

Isso tem dois desdobramentos importantes. A pesquisa reforça os estudos de Mihaly Csikszentmihalyi, apresentados em 2008 na TED como as vantagens de se manter um ritmo de trabalho e como o corpo e a mente se beneficiam disso, nos tornando mais felizes.

Além disso, esses novos resultados colocam em cheque a maneira como a percepção vinha sendo estudada. Sempre se pensou que os olhos captavam estímulos e os enviavam diretamente ao cerébro, mas essa pesquisa indica que há muito mais processamento antes de o sinal captado(objeto real) ser finalmente entendido(como o vemos).

Como se o alerta para um entendimento errado em estudos de percepção não fosse suficiente, a pesquisa será usada para tentar melhorar a performance de atletas através da alteração de sua percepção do ambiente, antes do jogo.

10/GUI

Conheci hoje o 10/GUI, projeto de R. Clayton Miller que propõe um novo modelo de interação com o computador através de uma superfície multi-toque e uma revisão na interface gráfica do computador.

No vídeo, ele apresenta a superfície multi-toque como um trackpad do tamanho da tela, mas que ocupa o espaço que hoje é do teclado, enquanto os dedos(todos os 10!) aparecem na tela, assim como o cursor do mouse. Ele acerta ao mostrar os problemas com as ideias de tablets, que forçam o usuário a olhar para ela num ângulo estranho além de as mãos sobre a tela tamparem a imagem e também cita o problema de ter um monitor como o de hoje, mas com sensores de toque, uma posição um tanto estranha para trabalho.

Depois do hardware, o vídeo apresenta a proposta de software. Uma área de trabalho como as atuais do Windows, mas que organizam as janelas numa nova forma: as janelas ficam alinhadas, todas do mesmo tamanho, uma ao lado da outra. Elas se diferenciam pela barra de título, que fica na vertical, como se fosse uma aba, e por um recurso parecido com o Exposé, do MacOS X.

O pessoal do Vimeo adorou a proposta, e eu não nego que ela tem seus méritos, mas eu proporia algumas mudanças:

1. No dispositivo para toque, a ideia dos botões foi genial, mas eu os colocaria ao alcance dos indicadores ou polegares;

2. Alinhar as janelas na horizontal traz diversos problemas(como ficar inclinando a cabeça para ler o título da janela, a dificuldade de se navegar entre janelas quando muitas estão abertas e a necessidade de que todas elas tenham o mesmo tamanho). Os computadores estão migrando de organização de arquivos para busca e essa necessidade de rolagem para achar uma mera janela é um passo para trás. Eu sugeriria, no mínimo, manter uma janela em primeiro plano e deixar as demais permanentemente no estado do Exposé do Snow Leopard;

3. A quantidade de combinações de cliques, “pinches” e esticadas com 2, 3, 4 dedos é uma loucura! Se for pra manter essa quantidade de entradas, que elas sejam, no mínimo, personalizáveis;

4. Apesar de achar bem informativo a ideia de se ver o tempo todo quais as opções de cada menu(que ele mostra ao usar o botão esquerdo), a poluição visual é absurda. Mais simples seria um menu dropdown apenas do menu em foco, tornando o clique desnecessário para abrir o menu.

Encerrando, a proposta é válida e, principalmente, traz gente para discussão, como se pode ver no Vimeo.